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terça-feira, 14 de abril de 2020

Na Estante: Este Livro É Coisa de Mulher


Mas afinal, o que é coisa de mulher? Esse livro me surpreendeu muito e, definitivamente, ele de fato é algo de mulher... ou melhor, é um livro feito para mulheres. Mais que isso, ele se parece muito com uma conversa entre amigas. Conversa essa que é importante e necessária, mas nem sempre fácil. Precisamos falar sobre sororidade e precisamos disso para ontem. Maíra faz isso com maestria em sua estreia literária e o livro mais se parece um vídeo de seu canal, o que achei fantástico. Exatamente por isso, o livro ficou com cinco estrelas e mereceu muito bem cada uma delas. Não tenho como descrever uma sinopse para você, afinal, não estamos falando de um livro de histórias, mas sim de um livro que explica muita coisa por trás de muitas histórias. Coisas da nossa vida, coisas que vivemos diariamente e que lutamos para mudar e para que sejamos mais respeitadas. Porque sim, vivemos em um mundo machista. 

Maíra usa de suas vivências para explicar coisas que já estão entranhadas em nossa sociedade, mas que são completamente erradas e que muitas vezes aceitamos "porque o mundo é assim". O mundo, assim como as pessoas que vivem nele, pode mudar. E é sobre isso que conversamos em geral durante a leitura do livro. Usei a palavra conversamos porque, como comentei antes, o livro te faz querer pensar e debater e você acaba fazendo isso com o próprio livro. Em muitos momentos me peguei respondendo as perguntas que eram feitas durante a narrativa e logo vinha uma resposta escrita e, com isso, a leitura foi ainda mais gostosa e fez ainda mais sentido. Inclusive, acredito que esse seja um ótimo livro para clubes de leitura e para combinar de ler junto com as amigas.

O livro é para quem quer aprender mais sobre o que é ser mulher na sociedade em que vivemos e o que podemos (devemos!) fazer para mudar o tanto de coisa machista que vivemos. O livro vai transformar o mundo em um passo de mágica? Não. Mas o livro muda pessoas e, como bem sabemos, pessoas mudam o mundo. Com isso, falamos sobre como coisas de "mulherzinha" são sempre ligadas a fragilidade, sobre como vivemos com medo pelo simples fato de sermos mulheres, como muitas vezes no trabalho e na vida temos que trabalhar o dobro para que prestem atenção no que estamos fazendo e ainda para que a gente receba o devido valor. O livro ainda usa de fatos, séries, filmes, músicas e bandas atuais e de quando éramos mais novas para abordar os temas e fazer com que tudo faça sentido.

Em resumo, já está bem claro o quanto que indico. Mas, por favor, entenda que não é um livro para se distrair do mundo e ficar sem preocupações. Muito pelo contrário! É um livro que te faz pensar (viva!), que te faz ter medo, mas, ao mesmo tempo, vontade de lutar por direitos e tudo mais. 

Este Livro É Coisa de Mulher
Autora: Maíra Medeiros
Editora: Outro Planeta
Páginas: 176
Skoob do Livro.
Meu Skoob.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Ser Feminista X Livros de Romance


Faz um bom tempo que quero falar sobre esse assunto aqui no blog. Pensei, inclusive, em gravar um vídeo sobre isso, mas achei que falaria melhor por aqui. Não é que não goste de gravar vídeos, pelo contrário, eu amo! Mas sempre acho que consigo me expressar melhor quando escrevo e também me sinto mais livre quando coloco as coisas em palavras escritas (olha a doida). Vamos parar de enrolar e falar de uma vez. Faz mais de dois meses que esse texto está parado aqui nos rascunhos do blog e aí hoje, dia internacional da mulher, achei que era o momento certo de liberá-lo. Espero estar certa sobre isso, rs. Enfim, feliz dia das mulheres, afinal, não é fácil e a luta é diária, mas nós somos demais.

Desde que comecei a me entender melhor como feminista, ler romances, especialmente os new adults, se tornou uma missão quase impossível. Lembrando que romance é um gênero literário que não necessariamente é romântico. Enfim, muitos dos livros que amo de paixão, isso incluí meu querido Belo Desastre, são cheios de problemas que hoje (com meus 23 aninhos) me assustam. Os livros da Abbi Glines são minha válvula de escape, sério. São livros leves e relativamente divertidos, sempre com muitos personagens e casais diferentes, mas também entram nessa categoria bizarra, por mais que estejam melhorando com o tempo. A lista é grande e os problemas também são. Como assim? Casais cheios de problemas que não são normais e muito menos saudáveis. Isso me assusta? Sim! Mas o que me assusta mais é saber que muitas pessoas novas estão lendo e aplaudindo isso. Inclusive, já estive lá. Ah, mas esse papo de feminista é muito chato e blá-blá-blá. Se você pensa assim, infelizmente nada do que vou falar vai te ajudar, mas quem sabe se você ler até o final você consiga entender um pouquinho do que quero dizer.

Vamos lá, o problema não está em ler esses livros, afinal, eu seria bem hipócrita de falar isso, uma vez que a maior parte das minhas leituras são desse gênero. O problema está em não problematizar e questionar tudo que está lá. O problema está em achar normal a menina da história ter que sofrer tentando mudar o bad-boy que só quer saber de ficar com várias outras meninas, mas que lá no fundo pode mudar por aquela que é  a diferente de todas. Ahhhhhhhhhhhh. Ou ainda, aceitar tranquilamente uma relação em que a menina não pode nem sair com amigos para uma festa que a criatura gostosona (o cara, rs) já proíbe, por medo de perder o amor da sua vida. Sério, isso não é nem um terço dos padrões que temos visto por aí. Mas sabe qual me assusta mais? O que livro em que a vida da menina gira todinha em volta de ser aceita e amada por um cara, porque na cabeça dela, só assim ela pode ser feliz e completa. E sabe o que é pior? Não são nem só os new adults que se encaixam nisso, são noventa por cento dos livros de romance atual. Tudo bem você buscar um amor, só não pode se anular no processo.

Vamos lá, não tem nada de errado em você (ou a personagem) querer encontrar alguém legal para passar o resto da vida amando e sendo amada. Somos humanos e isso é normal e completamente aceitável. O que não está certo, e me preocupa, é a vida da pessoa ser apenas isso. Essa história de achar sua metade é furada, um casal não é feito de duas metades, mas sim de duas pessoas inteiras. Não ter amigos (livros em que não temos personagens secundários que mostram que a personagem tem vida além do romance), não ter sonhos (quando tudo ser resolve simplesmente por ter um namorado), não ter uma vida sem o outro (afinal, você pode estar junto com alguém, mas continua sendo uma pessoa com sua própria vida). Os livros em que as personagens estão buscando alguma coisa que sonham, ou trabalhando muito duro por algum emprego ou, simplesmente, vivendo a vida normal delas são algo raro. Claro que existem livros com esses temas, mas todos estão recheados de romances, muitas vezes forçados, que se destacam mais do que a própria vida da personagem. Ok, ela está buscando seu sonho de ser uma grande atriz, mas aí vai e conhece um ator mega famoso e muda todo o curso de sua vida e ele é tudo que ela sempre quis e não sabia, aí a história passa a ser sobre o amor deles, as brigas que vão ter por conta de fofocas e como ele a ajudou a realizar seu sonho, mas não é mais sobre o sonho dela e a vida dela. Porque a vida dela virou só ele. Ou ainda uma menina que acabou de entrar na faculdade com muitas ideias para seu futuro, mas aí conhece o cara mais gato do campus que vai virar a vida dela de cabeça para baixo e daí para frente é só isso. Como os dois estão se pegando pelos cantos e ele fica bravinho quando ela tenta fazer algo sem ele. A história deixa de ser sobre a vida acadêmica dela e passa a ser sobre o amor maníaco dele.

O que quero com esse post não é mudar o mundo (por mais que seria bem legal se fosse fácil assim), mas sim colocar uma pulguinha atrás da orelha de algumas (e alguns) de vocês. Ler é uma atividade que nos dá prazer, mas também pode nos ensinar muito e nos fazer pensar muito sobre quem somos e a sociedade em que vivemos. Continuo lendo esses livros? Sim, não vou mentir, afinal, vocês acompanham todas as minhas leituras. O problema não está no livro da atriz que se apaixonou pelo ator muito famoso, nem na menina da faculdade que se perdeu nos braços do bad-boy. O problema está em achar que isso é a única opção. Não estou aqui para ditar regras, credo, longe de mim. Mas para lembrar que podemos escolher nossas histórias. As da nossa vida e as que vamos ler. Podemos sim buscar um grande amor, mas sem esquecer que somos pessoas e que importamos. Sem deixar o outro (ou outra) dominando nossas escolhas. No final das contas, sem feminista é isso para mim. Ser dona do meu nariz e das minhas escolhas. Se empoderada por saber que minhas escolhas são minhas e buscar que as outras meninas se sintam assim também. Como sempre, não sei se temos algum sentido nesse post, mas pelo menos estou mais leve por ter escrito ele.